4 de agosto de 2008

Intermediários, especuladores e responsáveis

Publicado em 28/6/2008, no site do Correio Braziliense, Blog do Vicente Nunes,

coluna A Psicologia e o Dinheiro



No último sábado, nesta coluna, conversamos sobre pontos comuns entre teorias a respeito de controle de mercado e a intervenção das famílias quando os filhos estão passando por uma crise conjugal. O papo surgiu a partir do programa Expressão Nacional, da TV Câmara, que, sob o comando do jornalista Antônio Vital, debateu um problema que está mexendo com o mundo inteiro - a alta do preço dos alimentos.


Como eu disse na semana passada, não dá pra tocar em carestia dos alimentos sem falar em aumento do preço dos insumos, em protecionismo e em controle de mercado. Mas, o que também não dá é pra fugir da idéia de uma melhor distribuição de ganhos entre produtores e intermediários.


Não duvido de que é preciso que sejam adotadas medidas para garantir melhores resultados ao produtor, visto como o lado mais fraco desse cabo de guerra que é o mercado. Mas, embora não tenha sido o caso do programa em questão, chega a ser engraçado assistir a debates em que as pessoas aproveitam o momento pra descer a ripa nos intermediários e nos especuladores, como se eles fossem uma praga pior do que mosca branca ou gafanhoto.


Só que esses personagens não surgiram do nada, não se estabeleceram por acaso. Eles são cria do próprio mercado, o que equivale a dizer que foram gerados por nós, os não-intermediários e não-especuladores, a partir das nossas necessidades ou nas entranhas das brechas por nós deixadas no processo.


E, como acontece em toda relação de abuso, mal percebemos, no começo, o rumo que ela está tomando. Dessa forma, a situação vai se agravando, mais e mais, até que se torna insuportável - nesse momento, é fácil colocar a culpa nos outros e assumir o papel de vítima da conjuntura, de gente astuta, de aproveitadores. Mas gosto da idéia de que temos participação sempre que alguém consegue nos atingir. Não culpa, mas, responsabilidade.


Pensar assim pode trazer um peso que relutaremos em assumir. Entretanto, quando corajosamente despimos as vestes de refém e adotamos uma postura pró-ativa no processo, concluímos que o que nos aflige só pode ser por nós resolvido. Para isso, precisamos ampliar nossa visão, enxergar a situação como um todo, analisar o conjunto. É daí que saltará a solução. Simples, embora ainda nada fácil.


No caso dos intermediários, talvez as cooperativas sejam a melhor solução para os produtores, que nelas se fortalecem. No que diz respeito aos especuladores, talvez sejam necessárias leis mais modernas e eficazes, que evitem os excessos. Só não vale ficar parado. É nas mãos de quem sofre as conseqüências que está o poder de mudar o rumo das coisas. E isso serve pra qualquer tipo de relacionamento, qualquer situação de crise. Valeu, irmã! Até sábado, leitores!


Maraci Sant'Ana

28 de julho de 2008

O mercado e os casais

Publicado em 21/6/2008, no site do Correio Braziliense, Blog do Vicente Nunes,
coluna A Psicologia e o Dinheiro


O programa Expressão Nacional, da TV Câmara, debateu, na edição do último dia 10, a alta dos preços dos alimentos. Participaram da discussão José Tubino, representante da FAO no Brasil; Roberto Ellery, economista da UnB; e os deputados Pedro Eugênio, do PT de Pernambuco, que preside a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, e Luiz Paulo Vellozo Lucas, do PSDB do Espírito Santo.

O papo girou em torno do aumento do consumo de alimentos; dos insumos, que estão mais caros; da especulação; do protecionismo. Falou-se na ineficácia de se tentar controlar o mercado, em que sempre há os que perdem e os que ganham; na grita que só acontece quando os agricultores estão ganhando; e na dificuldade de se assegurar que os ganhos vão para o produtor, não para o intermediário ou o especulador.

São muitos os pontos de polêmica. Mas considero as questões relacionadas a controle bastante interessantes. Há quem acredite que o mercado precisa estar dominado; há quem entenda que ele possui uma mão invisível que o auto-regula; e há quem defenda a livre iniciativa, mas admite que caiba ao Estado, em alguns casos, definir regras. Divergências desse tipo também acontecem, nas famílias, no que diz respeito especialmente às uniões recentes ou de cônjuges jovens.

Muitos pais, zelosos e/ou enfastiados com a própria união, dedicam-se a controlar o casamento dos filhos, alegando que conhecem melhor a vida e que têm o dever de proteger o interesse de seus rebentos. Há os que procuram consultórios como o meu em busca de aconselhamento para os filhos. Algo parecido com o princípio da economia socialista/comunista. Movidos pelas melhores intenções, mas, não raramente, sem o menor conhecimento do que está realmente acontecendo, intervêm a ponto de decidir pelo casal, que pode insistir em arrastar uma relação sem chance ou chegar a uma separação não amadurecida e cheia de mágoas, inclusive contra os interventores.

No outro extremo, estão os pais não menos zelosos e/ou enfastiados com a própria união que, por temerem a reação dos filhos ou partidários da política “entre marido e mulher, ninguém mete a colher”, não se envolvem nesses assuntos. Enxergam seus descendentes casados como pertencentes a outras famílias. Deixam que eles se virem como puderem, mesmo que o pau esteja quebrando. Talvez pudéssemos chamá-los de liberais-radicais, seguidores de Adam Smith para assuntos matrimoniais.

Mas gosto de pensar que a virtude não está nos extremos, mas no meio do caminho. Dar a chance para que os jovens casais ou os que passam por uma crise encontrem o ponto de equilíbrio, permitir e até estimular a auto-regulação é sinal de sabedoria, assim como intervir em casos de abuso, de risco para qualquer das partes. Muitas das loucuras vivenciadas nos ambientes domésticos não aconteceriam, muita dor poderia ser evitada se, numa real necessidade, pais e sogros atuassem como amorosas “agências reguladoras”.

A quem estiver interessado na polêmica que envolve a produção de biocombustíveis e a crise mundial dos alimentos, recomendo entrevista concedida pelo deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP), presidente da Frente Parlamentar Pró-Biocombustíveis, ao programa Palavra Aberta, da TV Câmara. O endereço eletrônico é tvcapalavraaberta20080509-01-001.wm.100. Valeu, irmã! Até sábado, leitores!

Maraci Sant'Ana

21 de julho de 2008

Entre regras e medidas pontuais

Publicado em 14/6/2008, no site do Correio Braziliense, Blog do Vicente Nunes,

coluna A Psicologia e o Dinheiro


Na segunda-feira, este blog reproduziu artigo de Ugo Braga, repórter especial do Correio Braziliense, que dizia: “Todo jornalista, vivo ou morto, guarda no bolso um punhado de obsessões... há alguns anos me afeiçoei a uma discussão... O caso é que não consigo ficar quieto quando ouço alguém falar... a respeito do paradoxo entre regras e medidas pontuais para resolver problemas.... não se trata de um debate pouco e besta... ele rendeu um Prêmio Nobel aos economistas Finn Kydland e Edward Prescott... Mais que isso, aparece a toda hora na nossa cara, animado feito coceira”.

Ele se referia à discussão quanto ao benefício de se estabelecer regras que impeçam a autoridade não-monetária de tomar medidas pontuais que possam interferir na política monetária. E as frases “não consigo ficar quieto” e “aparece a toda hora na nossa cara, animado feito coceira” dão o tom de um processo obsessivo. Posso acrescentar, caro Ugo, que isso não é “privilégio” dos jornalistas. Nós, psicólogos, também temos nossas ziquiziras. Aliás, todos os mortais as temos. Quer ver?

Quem nunca ouviu falar de transtorno obsessivo-compulsivo, o famoso TOC? Pois o mundo está cheio de gente que vive como refém do horror a determinadas cores, datas ou lugares; de fantasias sexuais incestuosas ou sacrílegas; de ter de lavar as mãos várias vezes ao dia; de ter de somar algarismos de placa de automóveis; de ter de verificar repetidas vezes se o forno está desligado. Esses pensamentos indesejáveis são chamados obsessões. Eles são intrusos, involuntários e reconhecidos, pelo próprio doente, como ilógicos. Os comportamentos deles resultantes são chamados compulsões.

A doença pode surgir de repente ou de maneira insidiosa. O pensamento obsessivo provoca no indivíduo uma aflição que pode ser uma verdadeira tortura. E a angústia só é aplacada pelo comportamento compulsivo, que, por mais estranho que ele possa parecer ao doente e àqueles que o cercam, é o que traz alívio. Lembra o que aconteceu na economia na semana passada – tensão seguida de desafogo.

Há muito o nosso Banco Central vem agindo como independente. Assim, qualquer movimento por parte de autoridade não-monetária que possa indicar uma interferência na política monetária agita o mercado. Foi esse o resultado das conversas do presidente Lula com o presidente Meirelles, justamente no dia em que se definiria a nova taxa Selic - algo parecido com o que sente quem está vivendo tranqüilamente e é assaltado pela idéia de que alguma coisa ruim pode acontecer se os degraus da escada de casa não forem rigorosamente recontados. Um sufoco!

Na economia, as coisas se acalmaram quando os porta-vozes da Fazenda e do Palácio do Planalto reafirmaram que o Copom continua com toda autonomia e que não há interferência política nesses assuntos, que são tratados de forma técnica. Em outras palavras - os degraus foram conferidos e estão todos lá. Ufa!

Mas quem quiser viver sem TOC precisará de mais do que declarações tranqüilizadoras, como as dos porta-vozes - deverá buscar ajuda médica e psicológica. Pior do que o pânico do mercado é o de ver o chinelo virado, não poder arrumá-lo e ficar com medo de vir a perder a mãe por isso. Valeu, irmã! Até sábado, leitores!