4 de setembro de 2008

O caminho que vai dar no sol

Publicado em 26/7/2008, no site do Correio Braziliense, Blog do Vicente Nunes,
coluna A Psicologia e o Dinheiro


A economia do Brasil vem crescendo e, com ela, as oportunidades de trabalho. Segundo a coluna Emprego S/A, do Bom Dia Brasil de 10 de julho, só em maio deste ano surgiram 172 mil novas vagas – 66 mil nas nove maiores regiões metropolitanas e 106 mil no interior. Em Jeceaba, município de Minas Gerais, por exemplo, uma das siderúrgicas mais modernas do país vai gerar 7.500 empregos, número muito maior do que o de habitantes.


Como dito na reportagem, a qualificação é importante, mas o atributo mais valorizado, na hora da contratação, é a disposição para aceitar desafios. Porque raramente essas oportunidades estão logo ali, na esquina de casa. Ao contrário, estão espalhadas pelo país, às vezes bem longe, e exigem que o candidato tenha visão, coragem, disposição, desprendimento, amadurecimento, para se arriscar numa mudança.


Muitos acreditam que, uma vez que se profissionalizaram, graças a um curso técnico ou superior, estão garantidos, o que não é verdade. Ter uma profissão, um ótimo salário, morar bem, numa cidade maravilhosa, cheia de recursos e diversões é o sonho de todos nós. Mas não é assim que a banda toca. Esses paraísos consagrados não costumam ter vagas dando sopa. Neles, a concorrência é muito grande. E o resultado disso é gente frustrada por trabalhar em área diferente da de sua formação, ou reclamando sem parar das altas exigências e dos baixos salários.


Esses desavisados ficam por ali, como que pregados na cidade onde nasceram ou cresceram, incapazes, muitas vezes, de se descolar dos familiares, freqüentando a mesma roda de amigos, indo aos mesmos lugares e se lamentando por não conseguirem emprego. Alegam falta de sorte, que o mercado está difícil, que a economia está recessiva. Sem conseguirem se movimentar de forma diferente, parecem cachorro correndo atrás do rabo - não saem do lugar e ainda ficam exaustos.


É preciso ter visão e ousar. Lembro de uma conversa com meu filho quando ele tinha uns oito anos. Eu lhe disse que faria uma poupança para que ele pudesse estudar numa grande universidade, até mesmo nos Estados Unidos ou na Europa, se fosse o caso – coisa de mãe coruja de filho único. Só que ele me surpreendeu ao revelar que não poderia estudar nem mesmo no Brasil, já que estaria morando numa estação espacial de Marte.


É claro que ninguém precisa mudar para Marte. Aliás, espero que o meu baby nunca se transfira pra lá. Se for assim, corro o risco de sair daqui para o nascimento de um neto e só chegar pro aniversário de um ano. Mas Jeceaba é bem ali. Essa gente precisa se mexer, desmamar. O Brasil é muito grande e há lugares necessitando e muito de profissionais já prontos ou com vontade e coragem para se preparar.


E pra ajudar a animar essa galera, deixo um trecho de Nos bailes da vida, de Milton Nascimento: “Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol. Tenho comigo as lembranças do que eu era. Para cantar nada era longe, tudo tão bom. 'Té a estrada de terra na boléia de caminhão. Era assim. Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão. Todo artista tem de ir aonde o povo está. Se foi assim, assim será. Cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar”. Valeu, irmã! Até sábado, leitores!


Maraci Sant'Ana

26 de agosto de 2008

Bandalheira e depressão

Publicado em 19/7/2008, no site do Correio Braziliense, Blog do Vicente Nunes,
coluna A Psicologia e o Dinheiro


Desde a estréia desta coluna, tenho procurado trazer humor para os textos. Acho que, nas primeiras edições, até consegui. Só que manter esse espírito está cada vez mais difícil porque as notícias da área têm estado de lascar. Depois do investment grade, não surgiu nada muito animador ou digno de grandes comemorações. E não dá pra ficar imune, por mais tentemos, a essa avalanche de desastres. Isso é facilmente verificável nas ruas e venho observando o fenômeno também no consultório.


Quase todas as pessoas que me procuram para psicoterapia têm depressão crônica. E isso tem uma explicação que pode ser considerada simplista, mas nem por isso deixa de ser verdadeira. Em primeiro lugar, porque o sofrimento dessas pessoas não é recente e a depressão é uma doença progressiva. Infelizmente, relutamos tanto a pedir ajuda que, quando o fazemos, a situação já está crítica. Em segundo lugar, porque a depressão está tão comum que algumas instituições já a consideram um problema de saúde pública.


É claro que esses pacientes querem resolver questões particulares - “O maior problema do mundo é sempre o nosso”. Mas, há algum tempo, eles também têm se queixado dos problemas sociais. Às dificuldades íntimas, somam-se as enfrentadas por milhões de brasileiros, como a fome, a morte de bebezinhos, a falta de segurança, o trabalho escravo, o analfabetismo, a corrupção desenfreada, a falta de emprego, a miséria, a prostituição infantil, a desalentadora impunidade.


Assim, sintomas como tristeza, pessimismo, desesperança, cansaço físico e mental, sentimento de culpa, crises de choro, falhas de memória, dificuldade para tomar decisões, falta de concentração, alterações do apetite, do sono ou do desejo sexual, irritabilidade ou impaciência, vontade de sumir ou de morrer, típicos da depressão, são agravados pelos problemas do mundo em geral e do nosso país em particular.


Há gente que não mais consegue ler jornal ou assisti-los na TV. Todos os dias, lá estão notícias sobre crimes bárbaros, crise financeira, desvio de verbas públicas, corrupção, abuso de poder, acidentes violentos de trânsito, seqüestros, descaso das autoridades, tráfico de gente, de armas, de drogas. E percebemos que muito poderia ser evitado se houvesse melhor distribuição de renda e se milhões de Reais que pagamos a título de impostos, que deveriam ser direcionados para melhorar a vida de todos os brasileiros, não fossem desviados para os jatinhos, as lanchas, o scotch e o caviar de alguns, que por aí desfilam, deixando-nos a ver navios, no mau sentido, é claro.


E mesmo quando surgem boas novas como a operação Satiagraha, logo pipocam notícias como a da soltura de criminosos conhecidos, a do pedido para que o juiz Fausto de Sanctis seja investigado, a do envolvimento, enfim, de autoridades do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e até da mídia, ou seja, dos nossos quatro poderes, numa montanha de bandalheira. Desse jeito, não há quem não se deprima.


Mas, o que mais me preocupa é que a depressão, além dos sintomas já mencionados, traz um que considero o pior de todos – o medo paralisante, que nos impede de fazer o que precisa ser feito para salvar a nossa pele, a dos que nos são caros e a daqueles que estão doentes demais para se proteger. Que as forças que regem o Universo nos livrem desse flagelo maior! Valeu, irmã! Até sábado, leitores!


Quem quiser saber mais sobre depressão, diagnóstico e tratamento, encontrará, neste blog, os textos O GÊNIO E A DOR e DEPRESSÃO E MEDO.


Maraci Sant'Ana



19 de agosto de 2008

Grau de Investimento

Publicado em 12/7/2008, no site do Correio Braziliense, Blog do Vicente Nunes,
coluna A Psicologia e o Dinheiro



O bicho tá pegando desde a última terça-feira, quando a Polícia Federal prendeu, na boca da madruga, entre outros, Daniel Dantas, dono do Opportunity, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o empresário Naji Nahas, acusados de se unirem em quadrilha para desvio de verbas públicas, crimes financeiros, corrupção e lavagem de dinheiro. A operação recebeu o nome Satiagraha, tal qual o movimento de resistência sem violência à ocupação britânica da Índia proposto por Mahatma Gandhi.

De lá pra cá, as opiniões sobre o trabalho da PF se dividiram - há quem elogie a ação como um todo; há quem enalteça a investigação, mas considere as prisões desnecessárias ou censure a forma como elas foram feitas; há quem discuta a legalidade e a conveniência de alguns aspectos, como o uso de algemas e armamento pesado, além da presença da imprensa; e há, até, conforme noticiado neste blog, quem defenda Daniel Dantas.

Além disso, já li e ouvi que tudo isso só está acontecendo porque este ano é de eleições; porque a Polícia Federal faz, do seu trabalho, um espetáculo, numa espécie de jogada de marketing institucional que se mostra muito útil, especialmente em época de reajuste salarial; e, até, que, no Congresso, a maioria dos parlamentares de oposição considerou a ação um capítulo do “jogo do poder dentro do PT”.

Entretanto, é inegável o fato de que a maioria da população delira com essas operações. Muita gente se sente vingada, de alma lavada, com as notícias da prisão de peixes graúdos. E, além da expectativa de que a ação da polícia iniba outros golpistas, que se sentiriam desencorajados, há um sentimento de totalidade e preenchimento resultante, segundo pesquisadores, de um senso biológico de justiça.

Não dá pra não pensar que, enquanto alguns têm, em casa, um milhão de Reais só pra pagar propina a servidores públicos, faltam recursos, por exemplo, nos hospitais como a Santa Casa de Belém, onde mais de 60 bebês morreram no último mês; faltam recursos para a Polícia Militar treinar os soldados, para que eles, por total despreparo, não matem a tiros as criancinhas; faltam recursos para construir escolas de alvenaria, para que possamos tirar nossas crianças de construções de lata, infernais no verão e gélidas no inverno – faltam recursos para saúde, segurança e educação.

De nada nos adianta vermos bandidos dessa espécie atrás das grades por meros “15 minutos”. O que efetivamente vai resolver é vermos a grana voltando aos cofres públicos, dinheiro de corrupção revertido em favor da sociedade, o mercado financeiro funcionando sem distorções, pessoas investindo sem medo, os sistemas trabalhando sem falhas e uma legislação moderna, compatível com o mundo em que vivemos e com as espertezas dominantes.

O desejo de vingança nos é praticamente inevitável. Somos seres ainda muito ignorantes espiritualmente e nos deixamos assaltar até mesmo por sentimentos que, ao menos lá no fundo, consideramos moralmente pobres. Mas a revanche, como a mentira, tem pernas curtas. O que deve nos interessar, o que devemos exigir é justiça. Nós não somos Gandhi, mas temos cá nosso Satiagraha. Valeu, irmã! Até sábado, leitores!

Maraci Sant'Ana