31 de dezembro de 2006

Isso não é culpa sua!

Publicado no Tribuna do Brasil de 2/9/2006

Caderno TBmulher, Coluna Psicoproseando...com Maraci


"Tenho acompanhado sua coluna. Leio mais atentamente quando é sobre parceiros problemáticos. Todos dizem que a culpa dos muitos relacionamentos fracassados que tive é minha, que não sei escolher ou me impor. Sinto-me envergonhada com essa situação" (Selma do Lago Norte).

A má notícia é que as pessoas, provavelmente, têm razão: você não deve saber escolher parceiros ou se impor num relacionamento. A boa notícia é que ISSO NÃO É CULPA SUA!. Culpa tem a ver com negligência ou imprudência, com falta a uma obrigação ou princípio ético, com crime, com transgressão, com pecado. Esse não é o caso.

Imagine que você vai fazer uma moqueca de siri-mole. Nunca preparou esse prato, mas se arrisca como "chef". Ao final, a moqueca ficou salgada, o siri parecendo uma borracha e o molho, sem aquele colorido bonito. Você queria acertar, mas errou. Fez da maneira como julgou que daria certo, mas isso não funcionou. Investiu ali seus conhecimentos e energia, mas o resultado não foi nada bom.

Da próxima vez em que quiser preparar esse prato, deverá tomar algumas providências. Diminuir o sal, cozinhar menos o siri, caprichar nas verduras e no dendê talvez resolva. E se, mesmo assim, a moqueca não ficar gostosa, poderá buscar uma receita ou dicas com alguém que entenda do assunto. Assim, vai mudando o processo, na busca de um bom resultado. Porque você sabe que, se insistir em fazer como vinha fazendo, só vai conseguir uma comida ruim.

Assim acontece nos relacionamentos amorosos. Muitas vezes, querendo acertar, erramos. Tentando beneficiar, prejudicamos. Investindo nossos melhores sentimentos e energia, sofremos e desagradamos. Então, também nesses casos, para a nossa vida e os próximos relacionamentos, devemos tomar algumas medidas. Precisamos mudar o processo sempre que o efeito não for o esperado. Porque sabemos que, se insistirmos em fazer como vínhamos fazendo, só conseguiremos o mesmo resultado.

Acredito que seus amigos estejam com a melhor das intenções, ao dizer o que eles vêm dizendo a você, sobre seus romances. Devem estar querendo apenas ajudar. Uma espécie de terapia de choque. Mas não creio que caiba acrescentarmos à carga de alguém que viveu vários fracassos amorosos, ou mesmo um único relacionamento ruim, mais esse fardo. A culpa, que tem um peso enorme, costuma andar acompanhada do remorso. E, sinceramente, ainda não vi ninguém chegar bem a um bom lugar carregando esse tipo de inquietação.

Em lugar disso, falemos de RESPONSABILIDADE. Porque nada acontece conosco por acaso. Por mais que a nossa situação seja dolorosa, por mais que nos sintamos vítima do mundo, sempre contribuímos para nosso destino, mesmo que não tenhamos consciência disso. Portanto, já que temos participação, também temos o poder de mudar o rumo da nossa vida, de melhorá-la, aprendendo com os erros, mudando comportamentos e estratégias, repensando crenças e valores.

Alguém que se envolveu num relacionamento que começou amoroso e terminou horroroso não tem culpa. Mas, por ter tido responsabilidade no processo, pode e deve avaliar o que foi vivido, procurando conhecer como e quanto contribuiu para aquele insucesso. Esse exercício nos tira da posição de refém, permite que enxerguemos opções de como lidar com as coisas e as pessoas.

Sobre a moqueca de siri-mole, ninguém melhor do que Dona Flor, do romance "Dona Flor e Seus Dois Maridos", de Jorge Amado, para falar: ”Aí está esse prato fino, requintado, da melhor cozinha. Quem o fizer pode gabar-se com razão de ser cozinheira de mão cheia. Mas, se não tiver competência, é melhor não se meter. Nem todo mundo nasce artista do fogão.”

Uma boa moqueca de siri-mole, você pode até encomendar a outra pessoa, se não tiver talento para fazê-la. Mas, a sua vida amorosa, não. Então...mãos à obra. Até o próximo sábado!

Fidel, amor e paredón

Publicado no Tribuna do Brasil de 26/8/2006

Caderno TBmulher, Coluna Psicoproseando...com Maraci


Talvez jamais saibamos o que acometeu Fidel Castro. Procurei notícias confiáveis, mas nada encontrei. Tem sido assim, quando se trata de líderes políticos doentes. De qualquer forma, torço para que ele logo se recupere.

Só que essa situação trouxe à minha lembrança uma notícia publicada pela Veja, há alguns meses:“Fidel fuzila a internet. Regime comunista reforça censura com decreto que inviabiliza acesso dos cubanos à web”... “Num comunicado, o governo alegou que a intenção é “evitar o uso fraudulento da internet”. Mas ninguém duvida que o objetivo é dificultar o livre fluxo de informações”.

Fidel sempre contou defensores ferrenhos. Mas imagino que, até neles, essa medida produziu desconforto. E penso que muitos de nós sentimos alívio por estarmos distantes da realidade dos nossos irmãos cubanos. Mas será que o Regime é algo assim tão remoto?

Não se pode falar em Cuba e Fidel sem falar em domínio, ingrediente também de relacionamentos amorosos abusivos. Mas a proibição do uso da internet pelos cubanos levou-me a pensar naquele tipo de controle que alguém pode exercer sobre a vida social do parceiro.

Há quem fiscalize os comportamentos e até os pensamentos do outro, como os integrantes do CDR - Comité de Defensa de la Revolución, de Cuba. Vigilantes, selecionam amigos e parentes com quem o companheiro pode manter contato. Somente os que “vivem segundo sua cartilha” são bem-vindos. Alegando "cuidados" com o parceiro, tornam os contatos sociais desagradáveis. Uma confraternização pode virar uma provação. E quem não adere ao Regime arrisca-se ao paredón.

Mas há os que se comportam de forma encantadora em público, carismáticos como Fidel. Só que, quando entre quatro paredes, fazem com que o outro se sinta inadequado no que se refere à própria família ou aos amigos escolhidos. E podem usar chantagens, ameaças e acessos de fúria para coagi-lo a renunciar a entes queridos.

No início do relacionamento, pode parecer que essas pessoas apenas não querem partilhar as atenções do "amado". Mas o resultado disso pode ser o isolamento total. Muita gente renuncia ao contato social esgotada por essas batalhas, distanciando-se de pessoas e atividades importantes. E também aí a comparação com o que foi imposto aos cubanos é inevitável.

Apesar disso, a vítima fica presa ao anzol do “amor”, da esperança de que o outro mude, do medo de ficar sozinha, de ser responsabilizada pelo fracasso do relacionamento, ou da reação do opressor. Tudo da mesma forma que muitos cubanos estão presos ao Regime pelos índices sociais que o país apresenta, pela questionável não existência de desemprego, favelas e violência urbana, pela idéia de que todos têm alimentação, saúde e educação, pela alta expectativa de vida, pelo baixíssimo índice de mortalidade infantil, pelo medo do que possa acontecer se não se aderir plenamente ao sistema.

Um povo alegre, sentimental, emocional, barulhento e, ao mesmo tempo, desesperançado e temeroso. Essa descrição dos cubanos lembra muitas pessoas que vivem relacionamentos abusivos, que podem ser brilhantes em determinados locais ou situações, da mesma forma que podem ser deprimidas em outros, irreconhecíveis figuras.

Dizem que há duas Cubas: a turística e a real. Assim como um relacionamento amoroso abusivo pode produzir duas vidas: uma pública e outra privada. Dizem que ninguém passa imune por Cuba. E, da mesma forma, ninguém passa imune por um relacionamento assim.

E aí, resta a pergunta. Você conhece alguém que, mesmo fora de Cuba, vive como se lá estivesse?

Como isso nos afeta

Publicado no Tribuna do Brasil de 19/8/2006

Caderno TBmulher, Coluna Psicoproseando...com Maraci


"Seu texto Um poder mal utilizado foi escrito pra mim. Nele enxerguei eu e minha mãe, um relacionamento de amor e ódio. É muito difícil lidar com alguém que está sempre enfatizando nossos defeitos. O que fazer? (Borboleta do Guará)."

Como problemas com pai e mãe afetam nossas vidas! Se pais e filhos conseguissem manter um bom relacionamento, que mundo diferente teríamos! Mas não é isso o que se vê. E, felizes ou não com o que se apresenta, precisamos continuar vivendo, da melhor forma que conseguirmos. Nada acontece por acaso.

Várias situações podem levar uma mãe a tratar mal um filho. Mãe também é gente. Passa por crises, adoece, fica de mau humor, irrita-se com os filhos, que também não são anjos. Muitas vezes uma boa conversa produz resultados maravilhosos. Então, aqui vai uma sugestão: planeje uma conversa com sua mãe.

Todos os dias, antes de dormir, reze pedindo ao Ser Superior de sua fé que abençoe o encontro que você está preparando. Diga a Ele o quanto sua mãe é importante pra você, o quanto o carinho dela lhe faz falta, o quanto você está disposta a compreendê-la. E peça-Lhe que indique o melhor momento para essa conversa. Não tenha pressa! O momento certo surgirá.

Quando a hora chegar, fale dos seus sentimentos. Comece dizendo o que você aprecia nela. Mencione os bons momentos que tiveram juntas. Diga que acredita que ela a ama, apesar das brigas. Fale o quanto ela é importante pra você. E se ofereça para ajudá-la caso ela esteja passando por um mau pedaço de vida. Nesse momento, não cabem acusações.

Se ela abrir o coração, ouça-a e tente ajudá-la no que puder. Se não puder, proponha procurarem ajuda. Se os problemas dela forem físicos ou emocionais, recomende um médico ou psicólogo. Você poderá até acompanhá-la à consulta, se ela assim o desejar. Se ela for religiosa, sugira algo que possa melhorar o relacionamento, como assistirem a cultos juntas, fazerem novenas ou promessas, ou tomarem passes com essa finalidade.

Se ela reclamar de você, ouça-a com paciência e exponha suas opiniões e motivos, sem rebater o que ela lhe disser. Lembre-se de que muito do que ela fala, se não tudo, deve estar sendo dito para o seu bem, mesmo que as palavras empregadas não sejam suaves. É bom anotar, ainda durante a conversa, as queixas por ela apresentadas. Deixe claro que você pensará com carinho em tudo. E pense mesmo, com tranqüilidade.

Pode ser que você encontre coisas absurdas. Pode ser que você encontre sabedoria nas observações e conselhos de sua mãe. Aproveite o que for bom. Dê passagem para o que não puder ser aproveitado. De qualquer forma, guarde as anotações. E repita esse processo quantas vezes achar que deve.

Um certo afastamento também deve ser considerado. Se não moram juntas, dê um tempo na relação. Evite ir à casa dela. Apenas ligue, de vez em quando, rapidamente, pra ter notícias. Vocês serem mãe e filha não significa que precisem estar grudadas. Podemos amar alguém de longe e é melhor que seja assim, se a proximidade provocar atritos.

Se moram na mesma casa, evite o quanto puder as discussões. Se isso resolvesse, vocês não teriam mais nenhum problema, após tantos anos brigando. E pense com firmeza na possibilidade de se mudar, sem rompimentos dramáticos, ódios ou rancores. A distância pode aproximar as duas.

Se nada der o resultado esperado, procure um psicólogo. Mesmo que só você busque ajuda, as duas sairão ganhando.

E se você tiver filhos, fique alerta. A gente tende a repetir histórias familiares, mesmo aquelas que não nos trazem boas lembranças. Até o próximo sábado !