3 de março de 2008

Nossos irmãos, nossa responsabilidade


Publicado no Tribuna do Brasil de 24/11/2006
Caderno TBprograma, Coluna Psicoproseando...com Maraci
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No domingo, graças à generosidade do amigo Denizard Souza, mais uma vez participei do programa de TV Sinais da Evolução. Dessa vez, não na qualidade de entrevistada, mas para fazer um apelo em favor dos animaizinhos que estão no corredor da morte do Centro de Controle de Zoonoses do Distrito Federal.

São cães e gatos, com e sem raça definida, filhotes e adultos. Muitos foram abandonados pelos donos porque cresceram, adoeceram, ou perderam a graciosidade da tenra juventude. Quem vai ao CCZ não consegue sair de lá sozinho. Quem vai ao CCZ não resiste ao apelo desesperado contido no olhar daqueles seres tão maltratados pelos homens, que têm a câmara de gás como triste destino.

Admiro o trabalho de quem se dedica a tentar salvar esses amores, procurando lares adotivos, definitivos ou temporários. Admiro quem luta pelos abandonados, deficientes, doentes. Admiro quem olha um animal e vê ali uma criatura de Deus, tão digna e merecedora, quanto qualquer um de nós, de respeito, atenção, cuidados. O mundo está cheio de bichinhos precisando de um lar, concluímos.

Mas a verdade é que há mais lares precisando de um bichinho. A ciência tem comprovado que a companhia dos animais melhora a qualidade de vida dos humanos. Pessoas com problemas cardíacos, por exemplo, vivem mais, já que essa convivência ajuda a manter baixos a pressão sangüínea e o nível do colesterol, além de reduzir depressão e ansiedade. Crianças com dificuldades de aprendizagem e relacionamento também se beneficiam, têm mais auto-estima, melhor integração na escola e maior vontade de aprender.

E existem vários estudos sobre os benefícios para quem atravessa dificuldades típicas da terceira idade e para pessoas com necessidades especiais, problemas neurológicos ou emocionais. Os relatos de recuperação são fantásticos. Por isso o Brasil vem adotando um trabalho que já é uma realidade em alguns países como EUA e Bélgica. Chama-se Terapia Assistida por Animais (TAA), em que profissionais utilizam cães e gatos para incrementar o tratamento de seus pacientes, tornando prazeroso o que poderia ser sacrificante.

Isso sem falar naquelas pessoas que não estão doentes mas sós, precisando de um amigo sincero, fiel. Um companheiro que sempre o receberá com alegria, disposto a passear, brincar, ver TV, tirar um cochilo, ouvi-lo sem censura, protegê-lo ou simplesmente permanecer a seu lado, sem cobranças ou reclamações. Se temos um animal de estimação, certamente desfrutaremos esses felizes momentos. Diferentemente dos humanos, eles sempre retribuirão afeto com afeto. Essa fórmula é infalível.

O Centro de Controle de Zoonoses do DF está lotado, em especial porque pessoas em pânico, por falta de esclarecimentos acerca da ocorrência de leishmaniose, têm abandonado os animais de estimação à própria sorte, sem sequer procurar saber se eles estão contaminados ou não.

Assim, se você quiser um amigo, poderá facilmente encontrá-lo no CCZ. Só precisará deixar o preconceito de lado e abrir seu coração para recebê-lo, mesmo sem pedigree, mesmo que ele não seja mais um bebezinho, ou perfeitinho. Pode ser que a aparência dele não esteja das melhores. Mas a gente também passa por isso. Há dias em que estamos de assustar. Mas nada que um banho, comida, cuidados básicos e carinho não resolvam.

Se precisar de ajudar ou orientação, poderá visitar blogs como o http://salvandovidas.zip.net e o http://adotecczdf.zip.net. Lá você sempre será muito bem recebido.

E nunca é demais lembrar que os animais são filhos de Deus, portanto nossos irmãos, nossa responsabilidade. Até sexta-feira!

12 de fevereiro de 2008

Fidel, amor e paredón

Publicado no Tribuna do Brasil de 26/8/2006
Caderno TBmulher, Coluna
Psicoproseando...com Maraci

Talvez jamais saibamos o que acometeu Fidel Castro. Procurei notícias confiáveis, mas nada encontrei. Tem sido assim, quando se trata de líderes políticos doentes. De qualquer forma, torço para que ele logo se recupere.

Só que essa situação trouxe à minha lembrança uma notícia publicada pela Veja, há alguns meses:“Fidel fuzila a internet. Regime comunista reforça censura com decreto que inviabiliza acesso dos cubanos à web”... “Num comunicado, o governo alegou que a intenção é “evitar o uso fraudulento da internet”. Mas ninguém duvida que o objetivo é dificultar o livre fluxo de informações”.

Fidel sempre contou defensores ferrenhos. Mas imagino que, até neles, essa medida produziu desconforto. E penso que muitos de nós sentimos alívio por estarmos distantes da realidade dos nossos irmãos cubanos. Mas será que o Regime é algo assim tão remoto?

Não se pode falar em Cuba e Fidel sem falar em domínio, ingrediente também de relacionamentos amorosos abusivos. Mas a proibição do uso da internet pelos cubanos levou-me a pensar naquele tipo de controle que alguém pode exercer sobre a vida social do parceiro.

Há quem fiscalize os comportamentos e até os pensamentos do outro, como os integrantes do CDR - Comité de Defensa de la Revolución, de Cuba. Vigilantes, selecionam amigos e parentes com quem o companheiro pode manter contato. Somente os que “vivem segundo sua cartilha” são bem-vindos. Alegando "cuidados" com o parceiro, tornam os contatos sociais desagradáveis. Uma confraternização pode virar uma provação. E quem não adere ao Regime arrisca-se ao paredón.

Mas há os que se comportam de forma encantadora em público, carismáticos como Fidel. Só que, quando entre quatro paredes, fazem com que o outro se sinta inadequado no que se refere à própria família ou aos amigos escolhidos. E podem usar chantagens, ameaças e acessos de fúria para coagi-lo a renunciar a entes queridos.

No início do relacionamento, pode parecer que essas pessoas apenas não querem partilhar as atenções do "amado". Mas o resultado disso pode ser o isolamento total. Muita gente renuncia ao contato social esgotada por essas batalhas, distanciando-se de pessoas e atividades importantes. E também aí a comparação com o que foi imposto aos cubanos é inevitável.

Apesar disso, a vítima fica presa ao anzol do “amor”, da esperança de que o outro mude, do medo de ficar sozinha, de ser responsabilizada pelo fracasso do relacionamento, ou da reação do opressor. Tudo da mesma forma que muitos cubanos estão presos ao Regime pelos índices sociais que o país apresenta, pela questionável não existência de desemprego, favelas e violência urbana, pela idéia de que todos têm alimentação, saúde e educação, pela alta expectativa de vida, pelo baixíssimo índice de mortalidade infantil, pelo medo do que possa acontecer se não se aderir plenamente ao sistema.

Um povo alegre, sentimental, emocional, barulhento e, ao mesmo tempo, desesperançado e temeroso. Essa descrição dos cubanos lembra muitas pessoas que vivem relacionamentos abusivos, que podem ser brilhantes em determinados locais ou situações, da mesma forma que podem ser deprimidas em outros, irreconhecíveis figuras.

Dizem que há duas Cubas: a turística e a real. Assim como um relacionamento amoroso abusivo pode produzir duas vidas: uma pública e outra privada. Dizem que ninguém passa imune por Cuba. E, da mesma forma, ninguém passa imune por um relacionamento assim.

E aí, resta a pergunta. Você conhece alguém que, mesmo fora de Cuba, vive como se lá estivesse?

25 de janeiro de 2008

O casamento e o sexo

Publicado no Tribuna do Brasil de 15/12/2006
Caderno TB Programa, Coluna Psicoproseando...com Maraci

Além dos leitores que enviam suas dúvidas e pedidos de conselho, também os meus amigos são pródigos em sugerir temas para esta coluna. Assim, recebi da muito querida Hilta, uma grande amiga, super bem casada com o também meu amigo Rezende, um artigo que diz que sexo é bom, mas, no casamento, nem sempre. Só mesmo eles, que formam um casal invejavelmente feliz, poderiam ter a lembrança de me repassar um texto assim.

Ele fala de pesquisas realizadas por profissionais e algumas publicações sobre o tema, que incluem depoimentos. A falta de tempo por excesso de trabalho, as pressões resultantes do compromisso de fidelidade, a obrigatoriedade de estarem sempre juntos e a rotina estão entre as justificativas dos entrevistados para a pobreza no sexo.

Todos querem prazer, charme e animação, como nos filmes e novelas. Muitos sonham com isso, acreditando que basta que estejamos com alguém de quem gostamos, toda noite, na mesma cama, para que tudo dê certo. Mas esbarram em problemas como os apontados pelos entrevistados. Não sabem que uma união estável não é garantia de boa vida sexual.

Sem querer parecer piegas, mas, para muitos, já sendo, os testemunhos lidos me fizeram pensar não em vida sexual ruim, apenas. Eles me fizeram pensar em falta de vida amorosa. Muitos casais vivem juntos e até fazem sexo, mas não têm uma vida amorosa. Nos depoimentos, senti que é isso o que falta, o amor praticado quotidianamente.

Não estou dizendo que não é possível sexo sem amor. Muitos desses encontros são bons e divertidos. Mas não consigo imaginar um casal mantendo uma vida sexual feliz, dia após dia, ano após ano, sem uma vida amorosa feliz. Se os dois estão física e emocionalmente saudáveis e há amor, a sintonia se encarrega de, na hora certa, derrubar cansaço, frustrações e as barreiras das pressões e da rotina. O sexo flui sem necessidade de grandes preliminares ou malabarismos. E é maravilhoso.

Quando há amor, o olhar nos olhos, o cheiro do outro, simples beijos e abraços ou um sorriso cúmplice são suficientes para despertar o desejo. Não é preciso ficar inventando coisas do outro mundo, uma após a outra, para manter alto o nível do interesse sexual pelo e do parceiro. É claro que a novidade é um dos temperos da vida. Mas, quando a vida amorosa está bem, até mesmo o de sempre, o básico, torna-se especial.

O amor é o melhor combustível para o sexo. É ele que proporciona o enxergar, o ouvir, o sentir o outro, a entrega. E isso não acontece só na cama. Quando estamos amando, podemos, a qualquer momento do dia, pensar no ser amado e sentir o coração aquecido. Podemos, a qualquer momento do dia, dirigir ao outro sublimes sentimentos. Podemos dar uma ligadinha, no meio da tarde, só pra dizer a ele: "Mal posso esperar a noite chegar". E aí, no momento em que o encontramos, já estamos prontos.

Então, para quem quer uma vida sexual realmente feliz, vai aqui uma receita: construa uma vida amorosa. Procure se ligar a alguém que também se ligue amorosamente a você. Aproxime-se desse alguém e permaneça amorosamente próximo, como se a ele estivesse abraçado em espírito. Quando nele pensar, que seja amorosamente. Quando para ele olhar, que seja amorosamente. Quando lhe dirigir palavras, que elas sejam sempre amorosas, mesmo quando precisarem ser duras. Tudo pode e deve ser feito com amor, respeitadas as individualidades, sem obsessões ou apegos egoístas.

E para quem pensa não saber o que é o amor, transcrevo as palavras do psiquiatra americano William Menninger: "O amor é um sentimento que a gente sente quando sente que vai sentir um sentimento que jamais sentiu." Até sexta-feira!