31 de dezembro de 2006

Depressão e medo

Publicado no Tribuna do Brasil de 12/8/2006

Caderno TBmulher, Coluna Psicoproseando...com Maraci


"A sua crônica "Um amor sobrevivente" retrata, em muitos pontos, exatamente o que acontece comigo há nove anos. Vivo um relacionamento que não acrescenta nada à minha vida. Sei que preciso acabar com esse martírio mas falta-me coragem. O que devo fazer?" (Júlia, de Taguatinga Sul)

Não é fácil terminar um relacionamento, mesmo quando a gente sente que ele nada acrescenta à nossa vida, como você disse. Sempre há muito envolvido, como filhos, dinheiro, bens, parentes, amigos, grupos sociais. Além disso, pode surgir o medo de não estarmos tomando a melhor decisão, com risco de nos arrependermos e não conseguirmos reatar o que vier a ser rompido. Assim como pode pintar o pânico de ficarmos pra sempre sozinhos, de não conseguirmos outro companheiro.

Às vezes, apenas pensar nos obstáculos e nas dificuldades produz uma pressão tão grande que a gente entra em desespero, perde a coragem. O que muita gente não sabe é que alguns desses obstáculos nem são reais, a exemplo de alguns medos que apavoram, tiram o sono, paralisam. Eles resultam de um processo depressivo, de uma disfunção química do cérebro, que nos impede de ver as coisas com clareza. E se a gente não consegue sequer enxergar o problema, como vai encontrar a solução?

Você disse estar nessa situação há nove anos. Isso é muito tempo. E quanto mais o tempo passa, quanto mais sofremos por algo que parece não ter fim, maiores são as chances de entrarmos em depressão ou de a agravarmos, se ela já existia. Quanto mais a gente se enrola com o problema, mais entra em depressão. E quanto mais entra em depressão, mais se enrola com o problema.

Aí não dá mais pra fugir. Devemos procurar alguém que nos ajude a enxergar, como um todo, o labirinto em que estamos perdidos. Porque só enxergaremos a saída se tivermos a visão do conjunto. Os amigos podem ser preciosos nessa hora. Mas vale procurarmos um profissional, principalmente se surgirem sintomas como tristeza sem fim, crises de choro, um cansaço que nos derruba, ou aquela vontade de sumir, de mudar de planeta, de desaparecer, de morar num convento no Tibet, de morrer.

E, pra quem não sabe, aqui vai um alerta: a depressão é uma doença progressiva e, portanto, precisa ser levada a sério. Não se trata de frescura, de falta de fé ou de força de vontade, assim como não é um defeito de caráter. Dependendo do grau de comprometimento, a pessoa não poderá ser curada com viagens ou farras. Ela precisará da orientação de um psicólogo e muitas vezes, de acompanhamento psiquiátrico porque, se existir uma disfunção química do cérebro, ela deverá ser corrigida com a medicação adequada.

Costumo dizer que encarar problemas estando em depressão é o mesmo que entrar desarmado na jaula de uma fera. As chances de a gente sair inteiro são pequenas. Claro que milagres sempre podem acontecer. Mas não custa darmos uma mãozinha aos anjos e santos que nos protegem. Tratar a depressão equivale a nos munirmos de uma boa espingarda. A fera pode até nos engolir, mas estaremos mais confiantes, em condições de combatê-la e vencê-la.

E a partir do momento em que nosso cérebro passa a funcionar como deve, tudo começa a clarear à nossa volta. O trabalho de psicoterapia fica mais fácil e produtivo, desaparecem as dificuldades e os medos irreais e sentimo-nos mais tranqüilos e dispostos no enfrentamento dos problemas reais que continuarão a exigir nossa atenção e providências. Aí sim estaremos prontos a decidir o que fazer, como fazer e quando fazer.

Até o próximo sábado !

Um poder mal utilizado

Publicado no Tribuna do Brasil de 5/8/2006

Caderno TBmulher, Coluna Psicoproseando...com Maraci


Recentemente, como de costume, estava eu em uma conhecida Casa Espírita de nossa cidade para assistir a duas palestras: uma sobre a verdadeira fé e outra sobre o respeito à vida. E, durante uma hora, só ouvimos, além dos palestrantes, a vozinha de um menino de, mais ou menos, 1 ano de idade, que lá estava acompanhado dos pais e irmão. Apenas "dadás" e "vovôs", serviam de música de fundo para aquelas mensagens maravilhosas.

Terminado o evento, o ambiente ainda sob o impacto daquelas palavras, uma senhora procurou o pai do garotinho. De onde eu estava, não dava para ouvir bem, mas dava pra perceber que ela não lhe dirigia boas palavras. Ao final, ela voltou ao seu lugar na platéia, com uma cara “daquelas”, deixando o coitado desconcertado. De tudo, só entendi ela dizer "está escrito ali!", apontando para o palco, onde há a seguinte inscrição: "Esta é uma casa de oração. Silêncio".

Veio-me a desagradável sensação de que ela havia reclamado do menininho. Fiquei mal, mas consegui recuperar-me a tempo de procurar o casal, apresentando-me como psicóloga da Casa. O rapaz explicou, então, que a tal senhora havia dito "que se ele não conseguia manter o filho de boca fechada, era melhor não ir às reuniões". Perguntei se ele havia levado aquilo em consideração, ao que ele respondeu "Claro que sim!". Felizmente consegui reverter o mal que se fizera, explicando que aquela pessoa não falava em nome da Casa, que sempre acolhe com todo carinho àqueles que lá comparecem, especialmente as crianças. E que ele deveria considerar que muitos dos que lá encontramos estão ali exatamente procurando ajuda, em total desequilíbrio espiritual e/ou psicológico.

Mas aquele acontecimento ficou para mim como uma confirmação de que precisamos tomar cuidado com o que ouvimos. Quantas vezes, sem a menor crítica, adotamos como verdade o que nos falam, mesmo pessoas estranhas? Se aquele rapaz tivesse refletido, por poucos segundos, não teria nem considerado as observações da tal senhora, de quem ele sequer sabia o nome, mesmo porque aquelas palavras e a forma como elas foram ditas em nada combinavam com a instituição ou com as mensagens transmitidas naquela noite.

Essa situação foi facilmente contornada. Na realidade, não tive trabalho algum porque tudo naquele lugar conspira para um final feliz. Difícil é quando encontramos criaturas que trazem como verdades eternas as loucuras que lhes foram ditas por pais, avós, tios, professores, ou alguém em posição de autoridade. Como dói ouvir de uma mãe ou de um pai um “você não presta!”, ou ouvir de um professor um “você é burro!”. Essas pessoas têm um poder tão grande, mas muitas, muitas mesmo, não o sabem usar. E o resultado pode ser um homem de 40 anos que ainda não conseguiu escolher a profissão porque não se acredita capaz sequer de optar, ou uma mulher que vive um casamento torturante porque não crê que possa viver sozinha ou encontrar outro companheiro.

Não estou pregando que pais, irmãos, professores ou assemelhados não devem ser ouvidos. Mas precisamos entender que essas pessoas, como nós, são seres humanos, portanto não perfeitas, passíveis de erro. E se, quando crianças, dificilmente os enxergamos assim, podemos e devemos observá-los e avaliá-los quando adultos, para aproveitarmos o que eles têm de bom a nos oferecer, desprezando, em parte ou totalmente, aquelas “pérolas” que, muitas vezes, são resultado da ignorância ou do desequilíbrio.

E se não conseguirmos isso sozinhos, vale pedirmos ajuda profissional, lembrando sempre que as pessoas têm apenas o poder que nós concedemos a elas.

Até o próximo sábado!



E o parceiro ideal?

Publicado no Tribuna do Brasil de 29/7/2006

Caderno TBmulher, Coluna Psicoproseando...com Maraci


"Li em sua coluna a respeito do grupo 'Para Sobreviver a um Grande Amor'. Tenho 52 anos e já me envolvi com vários homens problemáticos. A essa altura da vida, há alguma coisa que eu possa fazer pra encontrar o parceiro ideal?" (Kátia, do Lago Norte)


Não sei o que você considera o “parceiro ideal”. Mas sei que existem homens saudáveis neste mundo. Assim, há possibilidade de você encontrar um desses e se relacionar saudavelmente com ele. Só que, para isso, precisará de preparação, porque o homem saudável relaciona-se apenas com mulheres saudáveis.

Sempre recebi em meu consultório mulheres que viveram, estão vivendo ou normalmente vivem relacionamentos difíceis. Uns parceiros bebem, outros usam drogas, ou jogam, ou são compulsivamente infiéis, ou agridem fisicamente, ou torturam com palavras, ou são emocionalmente distantes. Mas, de qualquer forma, são incapazes de retribuir afeto com afeto.

Infelizmente, maioria das vezes, essas mulheres só procuram ajuda quando já estão falidas emocionalmente, fisicamente, financeiramente, quando já fizeram o possível e o impossível para compreender, ajudar, recuperar o parceiro. Em nome do amor, tentaram tudo, de cirurgias plásticas a viagens pela Europa, passando por despachos em encruzilhadas e consultas a videntes. Nada parece loucura se é para salvar, acalmar ou prender o amado.

Por isso criei, em 1995, o grupo “Para sobreviver a um grande amor”. Nele, reúnem-se apenas mulheres nesse tipo de situação. E, durante o processo terapêutico, elas aprendem a identificar o que as levou a esse tipo de envolvimento; por qual motivo nada que foi feito ajudou a melhorar o relacionamento; o que as manteve ou mantém presas ao parceiro, embora a vida em comum tenha sido ou seja péssima; como elas podem mudar suas vidas para melhor; e, se houver um rompimento, como sobreviver sem o parceiro e o que fazer para evitar outros companheiros problemáticos.

Diferentemente do que muitos podem pensar, esse trabalho não é para separar casais. Também não visa ensinar à mulher maneiras de mudar o parceiro. Ninguém muda ninguém! O objetivo da terapia é a recuperação daquela que reconhece que algo está muito errado e que sozinha não é capaz de resolver o problema. Nós podemos e devemos mudar a nós mesmos, quando enxergamos que precisamos tomar providências nesse sentido.

Mas pode ocorrer que a mudança da mulher provoque uma mudança para melhor no parceiro, recuperando o relacionamento. Assim como pode acontecer um rompimento, a partir do momento em que ela, tornando-se saudável, deixe de se interessar ou desista daquele homem doente, que se recusa a fazer algo por ele mesmo ou pela relação.

Sei que não é fácil o processo de cura. Mas a orientação profissional e o apoio do grupo mostram que é possível superarmos aquelas dificuldades que massacram, destroem, tiram a vontade de viver e podem, literalmente, matar. E a boa notícia é que todas as mulheres que efetivamente se comprometeram com a própria recuperação deixaram de lado o sofrimento, trazendo tranqüilidade também para a vida dos filhos.

Então, se o que você quer é um parceiro saudável, a primeira providência é tornar-se saudável. O fato de você ter se envolvido, repetidas vezes, com homens problemáticos é um sinal de que, como eles, precisa de ajuda. Uma mulher saudável não cai nesse tipo de armadilha ou, se cai, livra-se dela sem maiores dificuldades.

Quanto antes começar o caminho da recuperação, mais chances você terá de conquistar um relacionamento verdadeiramente amoroso com outra pessoa ou sozinha, com você mesma.

Até o próximo sábado !