31 de dezembro de 2006

Um poder mal utilizado

Publicado no Tribuna do Brasil de 5/8/2006

Caderno TBmulher, Coluna Psicoproseando...com Maraci


Recentemente, como de costume, estava eu em uma conhecida Casa Espírita de nossa cidade para assistir a duas palestras: uma sobre a verdadeira fé e outra sobre o respeito à vida. E, durante uma hora, só ouvimos, além dos palestrantes, a vozinha de um menino de, mais ou menos, 1 ano de idade, que lá estava acompanhado dos pais e irmão. Apenas "dadás" e "vovôs", serviam de música de fundo para aquelas mensagens maravilhosas.

Terminado o evento, o ambiente ainda sob o impacto daquelas palavras, uma senhora procurou o pai do garotinho. De onde eu estava, não dava para ouvir bem, mas dava pra perceber que ela não lhe dirigia boas palavras. Ao final, ela voltou ao seu lugar na platéia, com uma cara “daquelas”, deixando o coitado desconcertado. De tudo, só entendi ela dizer "está escrito ali!", apontando para o palco, onde há a seguinte inscrição: "Esta é uma casa de oração. Silêncio".

Veio-me a desagradável sensação de que ela havia reclamado do menininho. Fiquei mal, mas consegui recuperar-me a tempo de procurar o casal, apresentando-me como psicóloga da Casa. O rapaz explicou, então, que a tal senhora havia dito "que se ele não conseguia manter o filho de boca fechada, era melhor não ir às reuniões". Perguntei se ele havia levado aquilo em consideração, ao que ele respondeu "Claro que sim!". Felizmente consegui reverter o mal que se fizera, explicando que aquela pessoa não falava em nome da Casa, que sempre acolhe com todo carinho àqueles que lá comparecem, especialmente as crianças. E que ele deveria considerar que muitos dos que lá encontramos estão ali exatamente procurando ajuda, em total desequilíbrio espiritual e/ou psicológico.

Mas aquele acontecimento ficou para mim como uma confirmação de que precisamos tomar cuidado com o que ouvimos. Quantas vezes, sem a menor crítica, adotamos como verdade o que nos falam, mesmo pessoas estranhas? Se aquele rapaz tivesse refletido, por poucos segundos, não teria nem considerado as observações da tal senhora, de quem ele sequer sabia o nome, mesmo porque aquelas palavras e a forma como elas foram ditas em nada combinavam com a instituição ou com as mensagens transmitidas naquela noite.

Essa situação foi facilmente contornada. Na realidade, não tive trabalho algum porque tudo naquele lugar conspira para um final feliz. Difícil é quando encontramos criaturas que trazem como verdades eternas as loucuras que lhes foram ditas por pais, avós, tios, professores, ou alguém em posição de autoridade. Como dói ouvir de uma mãe ou de um pai um “você não presta!”, ou ouvir de um professor um “você é burro!”. Essas pessoas têm um poder tão grande, mas muitas, muitas mesmo, não o sabem usar. E o resultado pode ser um homem de 40 anos que ainda não conseguiu escolher a profissão porque não se acredita capaz sequer de optar, ou uma mulher que vive um casamento torturante porque não crê que possa viver sozinha ou encontrar outro companheiro.

Não estou pregando que pais, irmãos, professores ou assemelhados não devem ser ouvidos. Mas precisamos entender que essas pessoas, como nós, são seres humanos, portanto não perfeitas, passíveis de erro. E se, quando crianças, dificilmente os enxergamos assim, podemos e devemos observá-los e avaliá-los quando adultos, para aproveitarmos o que eles têm de bom a nos oferecer, desprezando, em parte ou totalmente, aquelas “pérolas” que, muitas vezes, são resultado da ignorância ou do desequilíbrio.

E se não conseguirmos isso sozinhos, vale pedirmos ajuda profissional, lembrando sempre que as pessoas têm apenas o poder que nós concedemos a elas.

Até o próximo sábado!



E o parceiro ideal?

Publicado no Tribuna do Brasil de 29/7/2006

Caderno TBmulher, Coluna Psicoproseando...com Maraci


"Li em sua coluna a respeito do grupo 'Para Sobreviver a um Grande Amor'. Tenho 52 anos e já me envolvi com vários homens problemáticos. A essa altura da vida, há alguma coisa que eu possa fazer pra encontrar o parceiro ideal?" (Kátia, do Lago Norte)


Não sei o que você considera o “parceiro ideal”. Mas sei que existem homens saudáveis neste mundo. Assim, há possibilidade de você encontrar um desses e se relacionar saudavelmente com ele. Só que, para isso, precisará de preparação, porque o homem saudável relaciona-se apenas com mulheres saudáveis.

Sempre recebi em meu consultório mulheres que viveram, estão vivendo ou normalmente vivem relacionamentos difíceis. Uns parceiros bebem, outros usam drogas, ou jogam, ou são compulsivamente infiéis, ou agridem fisicamente, ou torturam com palavras, ou são emocionalmente distantes. Mas, de qualquer forma, são incapazes de retribuir afeto com afeto.

Infelizmente, maioria das vezes, essas mulheres só procuram ajuda quando já estão falidas emocionalmente, fisicamente, financeiramente, quando já fizeram o possível e o impossível para compreender, ajudar, recuperar o parceiro. Em nome do amor, tentaram tudo, de cirurgias plásticas a viagens pela Europa, passando por despachos em encruzilhadas e consultas a videntes. Nada parece loucura se é para salvar, acalmar ou prender o amado.

Por isso criei, em 1995, o grupo “Para sobreviver a um grande amor”. Nele, reúnem-se apenas mulheres nesse tipo de situação. E, durante o processo terapêutico, elas aprendem a identificar o que as levou a esse tipo de envolvimento; por qual motivo nada que foi feito ajudou a melhorar o relacionamento; o que as manteve ou mantém presas ao parceiro, embora a vida em comum tenha sido ou seja péssima; como elas podem mudar suas vidas para melhor; e, se houver um rompimento, como sobreviver sem o parceiro e o que fazer para evitar outros companheiros problemáticos.

Diferentemente do que muitos podem pensar, esse trabalho não é para separar casais. Também não visa ensinar à mulher maneiras de mudar o parceiro. Ninguém muda ninguém! O objetivo da terapia é a recuperação daquela que reconhece que algo está muito errado e que sozinha não é capaz de resolver o problema. Nós podemos e devemos mudar a nós mesmos, quando enxergamos que precisamos tomar providências nesse sentido.

Mas pode ocorrer que a mudança da mulher provoque uma mudança para melhor no parceiro, recuperando o relacionamento. Assim como pode acontecer um rompimento, a partir do momento em que ela, tornando-se saudável, deixe de se interessar ou desista daquele homem doente, que se recusa a fazer algo por ele mesmo ou pela relação.

Sei que não é fácil o processo de cura. Mas a orientação profissional e o apoio do grupo mostram que é possível superarmos aquelas dificuldades que massacram, destroem, tiram a vontade de viver e podem, literalmente, matar. E a boa notícia é que todas as mulheres que efetivamente se comprometeram com a própria recuperação deixaram de lado o sofrimento, trazendo tranqüilidade também para a vida dos filhos.

Então, se o que você quer é um parceiro saudável, a primeira providência é tornar-se saudável. O fato de você ter se envolvido, repetidas vezes, com homens problemáticos é um sinal de que, como eles, precisa de ajuda. Uma mulher saudável não cai nesse tipo de armadilha ou, se cai, livra-se dela sem maiores dificuldades.

Quanto antes começar o caminho da recuperação, mais chances você terá de conquistar um relacionamento verdadeiramente amoroso com outra pessoa ou sozinha, com você mesma.

Até o próximo sábado !


Um amor sobrevivente

Publicado no Tribuna do Brasil de 15/7/2006

Caderno TBmulher, Coluna Psicoproseando...com Maraci


Volta e meia recebo no consultório mulheres que viveram ou estão vivendo relacionamentos amorosos problemáticos. Elas vêm para consultas individuais ou para participar do "Para Sobreviver a um Grande Amor", grupo de terapia por mim criado em 1995 especialmente para atendê-las. E mesmo as já separadas dos parceiros relatam que, em algum momento, ouviram dos seus algozes a famosa frase "Eu te amo".

Não consigo imaginar nada que possa prender mais alguém do que um "Amo você". São palavras que representam tudo ou quase tudo o que queremos ouvir de quem amamos, que geram uma atmosfera de fascinação. Se são ditas com sinceridade e responsabilidade, encantam e os resultados são maravilhosos. Mas, se são ditas de forma irresponsável ou mentirosa, podem enfeitiçar e trazer conseqüências desastrosas.

Há quem passe anos preso a um parceiro que diz "Eu amo você", embora ele se comporte de um jeito nada amoroso. Há quem desculpe os abusos porque acredita que, "no fundo, no fundo" é amado. Insistem em viver história de horror que juram ser de amor, enfeitiçados pelas palavras, cegos para o que se passa em suas vidas, verdadeiros reféns.

Mas somos muito mais do que isso, do que criaturas que podem ser hipnotizadas por palavras vazias, sem sentido. Podemos e devemos questionar tudo o que nos dizem, até mesmo quando estamos apaixonados, extasiados pela magia que a paixão proporciona. Temos a obrigação de parar e refletir quando um relacionamento, por mais que tenha o rótulo de amoroso, descamba para o sofrimento.

Será que aquele que diz "Amo você" realmente se comporta como alguém que ama? Suas atitudes são respeitosas e construtivas, que combinam com palavras de amor? Ou parece que lidamos com alguém que diz amar, mas que age como quem odeia? Será que o amor combina com agressão física ou verbal, com descaracterização do outro, com exploração, com desrespeito, com mentira, com traição, com distanciamento, com egoísmo, com descaso?

Muitas vezes já ouvi, em consultório e fora dele, desculpas do tipo: "Ele me ama, só não sabe expressar", "Ele me ama, mas tem muitos traumas e problemas, por isso não é amoroso", "Ele até tenta ser amoroso, mas não consegue porque não recebeu amor na infância". Claro que muita gente tem problemas sérios que podem interferir nos relacionamentos, inclusive os amorosos. Muitas dessas pessoas precisariam de um bom psicólogo e, dependendo, até mesmo também de um bom psiquiatra. Mas a grande maioria, lamentavelmente, não se dispõe a isso, nem mesmo a uma simples conversa. Insistem no "Eu te amo" e dão o caso por encerrado, esperando que o outro acredite nisso e se dê por satisfeito.

Outro dia, conversando com uma jovem amiga, eu perguntei: "Vamos imaginar que você conseguisse ter a certeza de que ele a ama de verdade. O que realmente isso significaria? Os traumas dele seriam esquecidos ou superados, alterando assim suas atitudes? O relacionamento de vocês mudaria? A dor que você sente quando ele faz o que faz, desapareceria?" E, diante da cara de espanto dela, eu acrescentei: "Vamos imaginar que ele realmente ame você. Será que é esse tipo de amor, esse que ele tem a oferecer, que você quer para a sua vida? Um amor que rima com dor é o que você deseja?".

Podemos e devemos quebrar esse tipo de feitiço, avaliando se o que o outro nos dá é o que queremos receber. Se não for, precisamos deixar claro que não estamos felizes ou dispostos a viver com menos do que realmente desejamos. E se o outro não se dispuser a mudar sua oferta, devemos colocar um ponto final em algo que, na realidade, nada tem a ver com AMOR.